Conheça algumas músicas censuradas durante a ditadura

Veraneio VascaínaSociedade Alternativa, Apesar de Você. Essas são apenas os nomes de algumas músicas com teor político que foram censuradas na época do regime militar. Artistas como Capital Inicial, Raul Seixas, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso sofreram com a censura à produção cultural. Canções com ideias contrárias aos interesses dos militares, mesmo sem conteúdo diretamente político, eram censuradas.

O jornalista Rogério Matos lembra da confusão que aconteceu durante um festival de música, em 1968,  com Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, que virou um hino de resistência do movimento civil e estudantil fazendo oposição a ditadura militar. “Quem ganhou o prêmio foi Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. O público vaiou muito porque Vandré merecia ganhar”. Segundo ele, o refrão “Vem, vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora não espera acontecer” foi interpretado como uma provocação aos políticos. O cientista da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Kramer explica que esse repertório assumiu grande importância durante a ditadura. “Com o decreto do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), o regime ficou mais repressivo e deixou pouco espaço para a participação e a manifestação política da sociedade brasileira”, afirma.

As letras eram censuradas pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), subordinada ao Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça. Todas as obras artísticas, obrigatoriamente, teriam que ser enviadas para a DCDP, que iria analisar o conteúdo. Se fosse censurado, a gravadora poderia recorrer. Muitas canções que não tinham conotação política foram proibidas. “Era uma espécie de jogo de gato e rato entre o censor e o artista, que conhecendo as restrições cada vez maiores a um grande número de temas apela para uma linguagem cifrada, um código a ser desvendado pelo seu público alvo”, explica Kramer.

Um dos exemplos é Cálice, de Chico Buarque. O nome original era Cale-se, mas para ser aprovado teve que ser alterado. O artista foi um dos mais censurados na ditadura. Outra composição proibida foi Apesar de Você, inicialmente entendida como uma canção de amor, mas que falava sobre a repressão: “A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão, viu? Você que inventou esse Estado e inventou de inventar toda a escuridão”. Em 1968, Chico ficou exilado na Itália. Seus colegas de trabalho Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Caetano Veloso também foram exilados.

Outro cantor que sofreu repressão foi Raul Seixas com Sociedade Alternativa, definida por ele como “ter sua própria identidade, fazer o que você quiser”. O movimento era baseado na filosofia de Aleister Crowley. A frase Faz o que tu queres, pois é tudo da Lei , de sua autoria, é citada na música de Raul. O governo acreditava que o movimento poderia representar uma ameaça ao regime militar e fazer a população se rebelar. O cantor teve que prestar esclarecimentos sobre a sociedade alternativa. Havia a suspeita de que ela existia. Seu apartamento foi revistado e revirado por militares. Raul foi expulso do país em 1974 e acabou exilado nos Estados Unidos.

Com o objetivo de abrandar a forte atuação dos censores foi criado, em 1979, o Conselho Superior de Censura (CSC). Mesmo assim, muitas letras de artistas como Chico Buarque e Raul Seixas continuaram sendo censuradas pela DCDP. Com o fim da ditadura militar, o CSC foi desativado. Em 1987, o órgão voltou a funcionar. A nova Constituição de 1988 decretou a extinção da censura.

O produtor de eventos Thyago Noblat, 35 anos, e fã de bandas dos anos 80 recorda o trecho de uma das letras censuradas na época. “Cuidado pessoal lá vem vindo a veraneio toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho com números do lado, dentro dois ou três tarados, assassinos armados, uniformizados”. Veraneio Vascaína é da banda Aborto Elétrico e até hoje é lembrada nos shows pelo Capital Inicial. “Ela fala sobre a atuação dos policiais durante a ditadura, mas se analisarmos veremos que ainda é atual”. Para Noblat, os casos de violência envolvendo policiais que matam inocentes mostram o quanto a música é recente. “Ela relata o abuso dos policiais, que até hoje são despreparados para lidar com a violência: Se eles vêm com fogo em cima é melhor sair da frente, tanto faz ninguém se importa se você é inocente”, canta. O álbum de estreia do Capital Inicial, que tinha a canção, teve a venda proibida para menores de 18 anos. Mesmo assim, vendeu 100 mil cópias. Para André, a censura não impediu que a letra se tornasse um grande sucesso. “Ela se transformou em um dos maiores clássicos da banda”, afirma.

Assim como Noblat, a estudante Amanda Soares, que só tem 17 anos, afirma gostar das músicas daquela época. Para ela, muitas composições escritas há 30 anos ainda são atuais. “Quando você ouve Que país é esse parece que ela foi escrita esses dias. Algumas canções mostram que os políticos são os mesmos de anos atrás. Não mudou nada”, critica.

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A música Veraneio Vascaína fazia referência a viatura da polícia, Chevrolet Veraneio
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